quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Não teve Ocupe Central!

Por João Gabriel

Na comunidade do Detran, na Iputinga, zona oeste do Recife, existia um campo de futebol bem famoso entre os peladeiros da região e até mais distantes: o Central. Existia, não existe mais.
Como um bom campo de pelada, nunca foi um primor, muito pelo contrário. Mais terra e barro que grama, ou melhor, capim. Quem atacava para o lado da maré, podia sentir um leve desnível no terreno. Isso mesmo, não era uma ladeira, mas tinha uma descidinha para quem atacava para aquele lado. Mas a galera tava nem aí. Outra coisa bem peculiar do Central eram as marcas de patas de vacas e cavalos. Explico. Era bastante comum alguns cavalos e vacas ficarem pastando no campo. Em época de chuva, com o terreno mole, os animais deixavam as marcas de suas patas; com o sol, estas secavam e ficavam verdadeiros "catombos" e/ou buracos, mais uma dificuldade para os peladeiros mais técnicos. Em uma das laterais, uma vala era a linha que demarcava a saída de bola. Um empurrão de corpo ali e o cara ia comer lama. Muitas vezes, de fossa. Gente, carro, moto ou carroça passarem no meio (não exatamente no meio, claro) do campo enquanto tinha jogo rolando também era bem comum (ali era acesso/passagem de alguns moradores). Tive a oportunidade de jogar algumas vezes no Central (umas quatro vezes, acho) e a felicidade de marcar um gol (na barra da pista), mesmo meu time perdendo de 3a1. Infelizmente, não terei mais chances para tentar aumentar minha média.
Em algum mês do ano passado (não sei precisar qual) começaram as obras de um conjunto habitacional no terreno do Central, ou melhor, em cima do Central. E aí temos duas questões. Primeiro, o fim de um dos mais tradicionais campos de pelada da região, levando consigo histórias e sentimentos, acabando com um dos poucos espaços de lazer e socialização da comunidade e do bairro; segundo, a construção de um conjunto habitacional em uma comunidade que já tem lá seus problemas.
A primeira questão pode parecer uma besteira para muitos, mas não é. Um campo de futebol, mais que um espaço de lazer, é um espaço de interação. Falo por mim. Muitos amigos que tenho hoje, conheci batendo pelada, seja na rua, quadras ou campos, como o Central. Para homens acima dos 40 anos, a pelada de final de semana é, muitas vezes, o único escape à rotina estressante e cansativa da semana, além de ser um importante momento para ver os amigos e colocar a conversa em dia. Quando tiram este espaço desses homens, tal ritual dificilmente será reproduzido em outro lugar, pois teriam que achar um outro campo, num outro bairro ou comunidade. É outra circunstância. Sem falar que muitos não têm como se deslocar (por questões financeiras, mesmo) e nem querem. Já era uma tradição. Já era um espaço que proporcionava um momento de alegria pra uma galera. Poderia falar aqui, também, do fato está relacionado diretamente com o fim de jogadores mais técnicos e desenrolados (bater pelada num campo é diferente, em quase todos os aspectos, de bater pelada num society, por exemplo, e jogador de várzea tem características que nunca serão adquiridas numa escolinha), mas isso é assunto pra outra conversa.
A segunda questão, a princípio, e numa análise mais ingênua, pode ser interpretada como uma boa intenção. "Ora, estão tirando gente de condições miseráveis e dando-lhes condições dignas de moradia", diria algum inocente do Rosarinho. Bem, não vou por aí. As políticas habitacionais no Brasil, e Recife não foge à lógica, vêm se mostrando ao longo dos anos como práticas direcionadas para atender os interesses de determinados segmentos sociais e grupos específicos, e tem os pobres como argumento. Sem adentrar muito, dois fatos chamam atenção: empresários da construção civil aumentando suas fortunas; e comunidades sendo retiradas de pontos estratégicos da cidade para dar vez ao capital imobiliário (quase sempre comunidades muito antigas e que são - seu moradores, no caso - realocadas para lugares distantes dos locais de origem). Por ora, me interessa mais esse segundo ponto.
Expulsos dos locais onde cresceram e moraram toda sua vida, muitos moradores não gostariam de sair de suas comunidades. Na maioria das vezes, nunca foram consultados sobre isso. Pra piorar, são colocados em comunidades muito distantes das que moravam e, muitas vezes, com moradores de outros locais da cidade, que trazem consigo, também, suas especificidades (sem falar no tipo de habitação, muitas vezes trocam-se casas por apartamentos), além dos moradores que ali já se encontram. Essa salada por si só já é complexa, e pode-se ter uma ideia dos conflitos e problemas que surgem. Antes que algum gaiato atribua isso a classe social e nível de escolaridades de tais indivíduos, problemas e conflitos possivelmente existiriam mesmo se fossem moradores pós-graduados de Boa Viagem ou Casa Forte os realocados. Assim como também é verdadeiro que nem sempre moradores realocados tem relações problemáticas com seus novos vizinhos e comunidade. Trata-se aqui de mexer com aspectos subjetivos, como apego ao lugar, às pessoas daquele lugar, lembranças do lugar. Costumes e rotinas. Aspectos que nãos se constroem da noite para o dia, levam tempo, e não são pragmáticos. Quando se tem uma idade mais avança isso fica ainda mais complicado.
Essas duas questões, pra mim, são muito significativas e mereceriam atenção daqueles que se propõem a estudar a cidade e pregam de paladinos da cidadania. Contudo, não vi nem um esbocinho de um possível ocupe Central. Nem se quisessem, dá mais tempo. 


segunda-feira, 24 de junho de 2013

O que nos tem levado às ruas? O acaso!

Cem mil pessoas na Av. Rio Branco e na Cinelândia,
em frente ao Teatro Municipal, na segunda-feira  17 de Junho de 2013

Impossível passar ao largo de tudo que tem acontecido no país nestas duas últimas semanas, por mais que se tenha tanto compromisso a se cumprir. Isto é, por sinal, evidência de que, quando consideramos importante, sempre há algum tempo para se dedicar à política. Por isto mesmo que fui às duas principais manifestações aqui no Rio de Janeiro, segunda-feira 17 de Junho e na quinta 20 de Junho, e pude testemunhar um pouco da vida democrática, uma mistura de testemunho com participação. Não que eu tenha me furtado de participar erguendo cartaz ou bradando palavras de ordem, mas é que havia naquela movimentação de milhares de pessoas uma diversidade de coisas que me forçava a todo tempo um questionamento e uma reflexão. Havia, portanto, um distanciamento involuntário daquilo tudo, talvez por conta dos vícios da academia, da necessidade de a todo momento se questionar sobre a validade e a legitimidade do que se está vendo ou se vivendo. Não acho que isto seja o mais oportuno, às vezes o melhor da vida, mesmo na política, é se entregar à emoção do momento e deixar que a sinergia das palavras de ordem, das músicas e dos pulos nos faça aproveitar sem questionar se aquilo é mesmo legítimo ou não.

Talvez essa desconfiança se deva ao susto que esta onda de manifestações nos propiciou, ainda mais para quem acompanhou assiduamente aquele ano "em que pensamos perigosamente", 2011, quando assistimos pela tela do computador a Primavera Árabe, Os Indignados e o Occupy Wall Street. Pela facilidade de comunicação, transmissão direta dos acampamentos e assembleias por meio do LiveStream, acompanhei diariamente o que acontecia na Espanha e depois em Nova Iorque, dentre outras cidades, e antes mesmo disso tudo começar já havia visto o nascimento do movimento no estado americano de Wiscosin (Wiscosin Wave) por uma radicalização da democracia. Deixava-me intrigado a contradição entre a demanda nos países árabes por democracia e o questionamento que os movimentos na Europa e nos EUA faziam sobre esta democracia que a "primavera" reclamava. Afinal, enquanto na Tunísia, Líbia e Egito se derrubavam governos totalitários, os Indignados bradavam por "Democracia Real Já!". Os contextos eram, portanto, diferentes e para entender os respectivos movimentos haveria de se analisar suas situações político-econômicas distintamente. Havia, de certo, algumas coisas em comum, tal como aqui e ali o papel da internet como forma de reunião, organização, debate, divulgação e propagação de todos esses movimentos. 

Para nosso maior proveito os casos dos Indignados e do Ocuppy é mais oportuno, pela própria característica de democracias ocidentais. Vivemos, pois, sob o mesmo capitalismo, ainda que vez ou outra ocupando lados opostos da mesma moeda. Interessava-me especialmente, enquanto geógrafo, o conteúdo urbano da crise que estimulara tais revoltas, de modo que fosse bastante lógico que as pessoas, dia após dia desempregadas e despejadas de suas residências (por conta do não pagamento de seus financiamentos imobiliários), ocupassem as praças e tivessem frente a toda esta dificuldade a oportunidade de exercitar a democracia direta. O impedimento de habitar suas casas levaram as pessoas às ruas.

Mas, e nós? O que nos levou às ruas? Apesar das remoções em massa para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas, não foram os removidos arbitrariamente que convocaram a população às ruas. Talvez se o fizessem poucos lhes dariam ouvidos. Tampouco foram os desempregados que nos conduziram aos protestos. Estes são residuais, dada a nossa condição de "pleno emprego". Ninguém esperaria, portanto, que o Brasil, um país que passara a se situar no mapa das grandes economias e fortes democracias do mundo, figurasse também no mapa das revoltas. Um país que tirou na última década mais de dezenove milhões de pessoas da pobreza passar a ser cenário de manifestações a nível nacional é de fato uma surpresa, o que intrigou os governos, a imprensa internacional e, por que não, a nós mesmos. Não estávamos acostumados a ir às ruas, por maiores que fossem nossas penúrias, ainda mais agora quando vivemos o nosso melhor momento socioeconômico. 

É então que entra em ação o motor da história, o acaso criador de acontecimentos que, se não furtivos, são, certamente, crias da dialética entre a ordem e a desordem, dando forma ao caos criador. O Movimento Passe Livre (MPL) não começou a ir às ruas ontem, e já há uma década põe em questão o transporte público e a mobilidade urbana. Também não é de hoje a situação deplorável e o preço abusivo do transporte que a maioria dos brasileiros toma para ir trabalhar ou estudar diariamente, muito menos é de hoje a baixa qualidade dos serviços públicos, especialmente a saúde e educação. De repente as mobilizações contra os aumentos das tarifas do transporte público ganham corpo e a polícia reage com forte repressão. Ora, situação recorrente ano a ano. Afinal é minimamente questionável o Brasil ser um país de despolitizados. Quantos movimentos sociais e quantas manifestações e ocupações não irrompem o sagrado trânsito de cada dia, pondo a polícia militar a exercer seu dever de reprimir violentamente, coisa que se aprendeu nos anos obscuros de nossa história política (ditadura civil-militar)?

Como explicar que fatos tão recorrentes nos levaram a tamanha reação?

Creio que a resposta é simples: não há explicações a não ser o acaso. Os acontecimentos históricos nos fogem da análise por serem puro fruto do acaso. Não há como compreendê-los como uma mecânica que prenuncia seus movimentos. Podemos, no máximo, contextualizá-los. Isto não quer dizer que não podemos tentar entendê-los, ou mesmo que eles são sem razão, sem telos, sem diagnósticos. Estão inseridos em todo um contexto da realidade, mas irrompem-na sem aviso prévio, num encontro improvável das possibilidades que orbitam a falsa normalidade da rotina. Afinal, ninguém imaginaria que um tunisiano que pusesse fogo ao próprio corpo fosse a faísca da grande fogueira que derrubou três governos e que ajudou os tantos milhões de europeus a irem às ruas. Ninguém imaginaria também que um protesto em defesa de uma praça em Istambul levasse a Turquia a uma crise política.

Possível que por pensar assim me incomode bastante a tentativa da mídia de dar um diagnóstico rápido e preciso para tudo isto, ou mesmo a cobrança exigente de uma pronta resposta dos governos. Se alguns agem com cinismo, outros estão de fato atordoados. Tal como atordoada tem ficado as manifestações com sua sua enxurrada de pautas. No banquete da democracia, talvez estejamos a nos lambuzar. 

Mas para não ficar muito longo vou dar uma pausa aqui. No próximo texto darei minha interpretação para esses acontecimentos que nos provocaram a rediscutir a democracia, o nacionalismo, a cidadania, a política partidária, e, ainda que sob o silêncio dos meios de comunicação tradicionais, a própria mídia.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Tolerância aos Intolerantes II? O respeito aos homossexuais começa no reconhecimento da minha homofobia!


É comum se iniciar uma opinião contrária a algo antecipando uma salvaguarda àquilo de que se critica - quase sempre um "não que eu seja contra...". Assim também o é com relação à homossexualidade e o incômodo que muitos tem quando ela é experienciada no espaço público. Achar nojento dois homens se beijando é quase sempre precedido por um "não que eu seja homofóbico", como que numa tentativa de anular qualquer possibilidade de crítica, já que aí haveria, mesmo que brevemente, um respeito ao outro. Essa arma ideológica chamada de cinismo é artifício de muitos setores da sociedade, desde o explícito "caixa 2" dos partidos políticos nas eleições, até as empresas "responsáveis" pelo meio ambiente e pelos pobres. Essa estratégia ideológica que nos desarma, vez ou outra, é muito perigosa, pois por mais que aqui e ali seja feita uma crítica ao atual estado das coisas, elas permanecem como tal. E, assim, por mais que os políticos falem em reforma política e que as empresas continuem pondo em prática seus projetos socioambientais, a corrupção é regra e não exceção, e as mesmas empresas "responsáveis" são flagradas praticando trabalho escravo ou graves crimes ambientais (Zara e Shell são meros exemplos de um amplo portfólio).

Na mesma lógica, por mais que se entoe o mantra do "eu não sou homofóbico", o "mas" que o segue perpetua uma história de marginalização, discriminação e preconceito com aqueles que não se enquadram na norma heterossexual. A solução para esse impasse é fazer o caminho inverso e reconhecermos o nosso preconceito, a nossa homofobia. Sim, sou sim homofóbico! Há um incômodo em ver dois homens se beijando,  e isto nada mais é que produto da sociedade em que me formei. Somente reconhecendo essa minha homofobia é que posso respeitar os homossexuais como cidadãos com os mesmos direitos, inclusive de, no espaço público, demonstrarem o afeto pelos seus parceiros, tal como eu o faço com minha namorada, especialmente no carnaval. E no carnaval isto se torna ainda mais grave, pois logo na festa em que "a carne vale", onde as normas sociais são subvertidas e os meninos brincam de se vestir de mulher, não reconhecer como "normal" o afeto homossexual é um paradoxo, pois é nesses momentos, e apenas nesses, em que este afeto é tolerado. 

Esse reconhecimento da homofobia que cada um guarda em si tem um efeito muito para além da honestidade com que devemos tratar o tema. É um instrumento pedagógico somente efetivado no espaço público, esse espaço compartilhado, onde somos obrigados a estar com o outro e, estando com o outro, aprendemos a respeitá-lo e, enfim, a desconstruir nossos preconceitos. Afinal, um carinho no cabelo ou um beijo em praça pública não pode ser visto como "normal" se feito por um casal heterossexual e "desmoralizante" se feito por um casal homossexual - qualquer excesso que tenham, pudor para ambos, mas não com dois pesos e duas medidas. A homossexualidade ter que deixar de ser coisa privada - "entre quatro paredes" - para se tornar coisa da esfera pública.

O que creio ser decisivo, e por isso tão provocador, é que vivemos uma revolução sexual sem precedentes. Se o século XX foi o século da mulher radicalizar a sua lutar por uma posição social justa, o século XXI é certamente o século em que vamos repensar e transformar o que pensamos como gênero e como família. Erroneamente o medo que nos atira ao conservadorismo receia uma "imposição" de uma outra norma, agora homossexual, alguns chegando ao apocalíptico temor de ameaça à espécie humana. Ingenuidade ou má fé! Tal como é ingênuo imaginar que em breve os homossexuais serão contemplados com os direitos que dizem respeito a qualquer cidadão. Isto quem nos avisa são 372 mulheres assassinadas por mês no Brasil, ou aquelas tantas violentadas, e mesmo aquelas que recebem um salário menor que os seus pares masculinos para desempenhar a mesma função. A luta continua.

É por isso que acho vão e frágil as reações frente ao conservadorismo dos tantos Malafaias, chegando a situações constrangedoras, tal como a entrevista da Marília Gabriela com o pastor milionário. Com a fé não se discute, e bendito aquele país que protege o direito de professá-la. Ou seja, é infantil buscar as contradições presentes na bíblia, lá elas estão, e não é tarefa de um leigo examiná-las. O campo de luta social é pelas instituições laicas, como o Estado republicano a que estamos submetidos, para garantir a aplicação dos direitos que a constituição federal nos assegura. Para tanto, é urgente que essas instituições reconheçam suas homofobias, para só assim estarem dispostas a erradicá-la. Mais uma vez, não há como ser tolerante com os intolerantes.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Tolerância aos Intolerantes? Ser Gay ou não ser, eis a questão!

Trocadilhos a parte, tenho acompanhado pela mídia os embates que orbitam a questão da homossexualidade, a homofobia, as igrejas, as eleições...Pois é, entre o Jean Willis e o pastor Malafaia há muitos cartuchos sendo gastos e muitas trincheiras sendo cavadas. Como um bom elemento de esquerda, daqueles que nos Estados Unidos é chamado de liberal, compartilho das lutas travadas em prol dos direitos civis, aqueles direitos que os liberais do século XVII pregavam como direitos contra o Estado para garantir a propriedade privada - e olha que me soa bastante oportuno um bom "Estado do Bem-Estar Social". Em nome de tal direito é que creio que as pessoas tem o direito de professarem sua fé, de fumarem sua maconha, de se revoltar contra o machismo e de amarem quem quer que os seus corações escolham, sejam do mesmo sexo ou não. Isto soa tão óbvio, tão evidente, que parece um tanto estranho para qualquer mente "mais livre", mesmo as recém-nascidas, que a "guerra homofóbica" travada na mídia, no parlamento, nos templos religiosos e naquela concessão pública chamada televisão, ganha tamanha proporção. 

Pois bem, meu incômodo derradeiro foi o texto da última edição da Revista Veja, aquela mesmo que se "você leu, azau o seu", no caso agora o meu também, mas que pela tiragem e poder econômico da mesma não dá para passar despercebida ao nosso olhar crítico. Com o título "Parada gay, cabra e espinafre", J.R. Guzzo comete, tal como o título promete, a comparação esdrúxula entre um relacionamento homossexual e a de um homem com uma cabra, ou mesmo com um incesto. Além do mais, repete a cada linha o termo homossexualismo, ou por ignorância à referência patológica ou por mera provocação, como não o subestimo creio na segunda possibilidade. Para além desses pormenores com efeitos "pormaiores", o argumento central do texto é que a existência de um "movimento gay" provoca o indesejável efeito de aumentar os embates sobre a causa. Elementar meu caro Guzzo. Creia que a luta dos negros por direitos iguais acirrou as posições conservadoras aqui e em qualquer lugar do mundo (assustadoramente isto tem passado até em novela), a luta feminista rendeu além da violência um monte de piadas que tentam levar a mulher de volta ao fogão, assim como a luta dos trabalhadores por moradia digna ainda os levam à criminalização e ao fogo incendiário das favelas. Sim, toda luta antecede um reação, ou melhor, toda luta por mudança social aguarda uma reação conservadora. Leia os livros de história, a república está aí às custas da superação de muito conservadorismo nobre e eclesiástico. 

O que dentre tantas coisas questionáveis está a garantia do direito das pessoas de afirmarem que ser homossexual é uma doença, é errado ou não natural. Não há para isto expressão melhor do que preconceito, intolerância, que tal crime? Dizer que o modo de existir de alguém não é natural é uma forma ideológica de extrair-lhe sua generalidade humana, de coisificá-lo, de desumanizá-lo, ao ponto de compará-lo com uma cabra ou um espinafre. Mas o que autoriza alguém cometer tal barbaridade? O direito de professar sua fé? Bem, tal direito, por sinal muito caro ao longo dos séculos e produto de muitas lutas das religiões não oficiais, não pode, ou ao menos não deveria, ser mediato para a interdição de outros direitos, para a intolerância. Exatamente aí reside a contradição lógica do argumento dos religiosos contra a lei da homofobia e demais questões da pauta homossexual - como reclamar por tolerância por meio da intolerância? Ora, antes de qualquer direito, o de professar sua fé ou experienciar sua sexualidade, está a dignidade humana, o que atesta a cada indivíduo social o exercício de sua generalidade humana, permitindo a este indivíduo a faculdade de fazer suas próprias escolhas. Não há como sustentar logicamente a intolerância em nome da tolerância. 

Mais contraditório é lançar mão de um discurso surrado da moral e dos bons costumes, ou ainda mais, remeter a uma ameaça à família. Pergunto: mas que família? Se a família está em crise esta é uma crise de um tipo específico de família, aquela patriarcal e machista. As famílias sob os cuidados das mães solteiras vão muito bem e obrigado, também o vão aquelas de pais separados e sua legião de padrastos, madrastas e enteados, sinais dos tempos. Tal como a sociedade se desenvolve assim o fazem suas instituições sociais, não em vão as igrejas protestantes estão abertas e lotadas, nos templos e nas TV's, de fieis e de dinheiro. Que os dividendos da modernidade não sejam privilégios de alguns, ainda mais daqueles que nos lembram de tempos sombrios em que tudo era pecado. Só para constar, ser gay é ser normal, também!

sábado, 1 de setembro de 2012

A Mobilidade Urbana e a Luta de Classes

Protestos contra o binário na Praça do Parnamirim
Fonte: JC Online

“Buzinem para acordar Pompéia e dizer a ela que isto está errado”, instigava o locutor no carro de som. “Pompéia, minha velha, você tirou uma faixa do carro para dar às bicicletas. O pessoal que anda de bicicleta está nos morros. Aqui, não”, completou ele, externando o sentimento de grande parte dos moradores da área. (JC Online)



Essa foi uma das palavras de ordem hoje de uma manifestação na zona norte do Recife por conta das alterações no trânsito da Estrada do Encanamento e Estrada do Arraial, o que inclui alteração do sentido das vias, implantação de ciclofaixa e de um binário na Praça do Parnamirim. Recife hoje ressoou esta questão na internet e o debate acalorado passou desde o início pelo conflito daqueles que tinham carro com os usuários de bicicleta. Logo veio quem fosse contra esse discurso "marxista" de "luta de classes", que a questão é mais complexa, que as mudanças necessitavam de melhor planejamento e que a prefeitura precisava pensar a mobilidade para "todos", tanto os que não abrem mão do seu carro como para aqueles que "preferem" outro modal.

Como para um mestrando em reta final, como eu, o tempo é precioso, resisti muito, mas sem sucesso, acompanhei o debate e decidi emitir uma opinião mais elaborada como agora o faço aqui neste blogue tão abandonado. O insucesso da minha resistência se dá exatamente pelo incômodo com os eufemismos que querem maquiar ou negar que vivemos numa sociedade cindida, uma cidade partida, cuja cisão está exatamente incrustada no domínio do poder social que é o dinheiro.

De certo que não cabe aqui fazer o discurso maniqueísta e leviano. Nem todo mundo que estava na manifestação é contra a ciclofaixa, muito menos, creio eu, sejam todos os que pensam que o pessoal que mora no morro não tem direito a espaço de locomoção na "planície". Contudo, o grande conteúdo desse embate passa sim por perspectivas de cidade diferentes, as quais, respectivamente, defendem interesses de classes sociais distintas. Quando o entusiasta no carro de som fala que ali não deveria ter ciclofaixa por conta de que quem anda de bicicleta está no morro ele enuncia o seu discurso a partir de sua posição social.

Ainda assim não vamos compreender o papel da classe social nessa disputa se ficarmos olhando a partir somente da questão da mobilidade. Temos de ampliar a vista e pensar na sociedade urbana como um todo, como as nossas cidades são produzidas, ou melhor, destruídas para dar lugar a um urbano sem vida.

Já é bem conhecido o modo de ocupação humana no Recife: pobres nos morros e alagados e os ricos e a classe média minimamente a salvaguardo das enchentes e dos deslizamentos. À medida que na cidade vai circulando mais dinheiro cresce o papel do capital imobiliário - que é a força propulsora da produção do espaço urbano - o Moura Dubeux Life Style vai sendo implantado, o que numa cidade de extrema desigualdade reflete no agravamento da cisão. 

Isso leva à:
- grande adensamento de prédios nas áreas nobres, consolidadas ou em expansão (como é o caso de Casa Amarela, entre Casa Forte e o "morro").
- realocação das populações pobres residentes nas áreas de expansão do capital imobiliário. O que no urbanismo é conhecido com gentrificação.
- privatização do espaço público - criação de mais vias para o carro e "esvaziamento" das ruas e praças.
- modelo de mobilidade baseado no veículo privado.
- acirramento da violência urbana - sem espaço público não há gente na rua, sem gente na rua há mais violência.
- deseconomia urbana - a densidade urbana torna o custo de oportunidade do carro muito alto, especialmente nas áreas centrais e nobres da cidade, causando congestionamentos que são o ensaio do engarrafamento final.

Dá-se, assim o ciclo vicioso: 
A cidade nesse modelo é produzida, portanto, com espaços para mais carros e mais condomínios de classe média alta. Quanto mais condomínio, mais carro em circulação, quanto mais carro, mais espaço para carro é necessário. Quanto mais espaço para carro, menos espaço para pedestre e ciclista; quanto menos espaço para pedestre e ciclista, menos espaços de convivência e circulação de pessoas; quanto menos espaço público, mais violência; quanto mais violência, mais condomínios da classe média alta com muros altos; quanto mais condomínios, mais carros...

O problema é que quando o modelo do carro cria a deseconomia urbana e a virada de modal de transporte leva à ampliação do transporte coletivo isso só é realizado com a transferência do perfil de usuário. Sai o pobre, entra o rico. Isso é o que vem acontecendo no Rio de Janeiro. Na zona sul você anda muito bem com ar-condicionado e ônibus limpo e confortável a preços absurdos, enquanto o trabalhador fica relegado a um trem imundo, quente e lento. Há, portanto, uma "gentrificação" da mobilidade.

Como ainda não chegamos nesse ponto em Recife ainda vemos os absurdos de ampliação de espaços para os carros, caso da Via Mangue. Associa-se a locomoção mais eficiente de uma determinada classe com a valorização imobiliária de suas áreas. Aos pobres num resta nem o usufruto dessa valorização nas áreas de expansão urbana, dada a política de remoção da pobreza que caracteriza a gentrificação levada a cabo seja pelo Estado, seja pelo mercado e que não repassa toda a renda urbana advinda da valorização. 

Promove-se, desse modo, uma integração funcional na cidade. Funcional à valorização do capital urbano - fundamentalmente imobiliário - e à circulação de quem o consome e o produz. E aí vem à tona a questão da bicicleta.

Como andam os consumidores dessa fábrica urbana imobiliária? Carro
Como andam os produtores e trabalhadores dessa fábrica urbana imobiliária?
- trabalhadores da construção civil: bicicleta
- porteiros: bicicleta
- entregador de água: bicicleta
- jardineiro: bicicleta
- eletricista: bicicleta
- pintor: bicicleta

Não consegui dados de Recife, mas Fortaleza, por exemplo, tem em 45% dos seus trabalhadores usuários de bicicleta para irem trabalhar.




Mas, no fim das contas, mobilidade pra quê? Vamos ligar a TV pelas manhãs - qual é a grande preocupação dos telejornais matinais? O trânsito? Sim. E o que vemos nas imagens de helicóptero todas as manhãs? É fácil, ônibus lotados e uma legião de carros. Indo pra onde? Ora, para o trabalho! E em que trabalham as pessoas no ônibus? E as pessoas no carro? E onde elas moram? Fato, essa mobilidade não é a mobilidade das pessoas, é a mobilidade da nossa cidade-empresa, é a necessidade de a força de trabalho chegar a tempo ao "serviço" (lugar da servidão) para poder fazer valer o dinheiro posto em circulação nessa economia urbana, dinheiro que alheio, mas que só rende às custas do serviço dos trabalhadores.

E isso não é uma questão de classe social? Ah, mas essa história de burguês e proletário num cola mais, é coisa do velho caquético Marx. Bem, não vivemos numa sociedade mais industrial, agora a parada é a economia dos serviços (a servidão é diferente), e mesmo as pessoas que estão nos carros não são burgueses, afinal, são assalariados. Sim, esqueçamos os velhos esquemas rígidos e tomemos o que vale. Não podemos falar de uma burguesia assalariada urbana? E de uma classe média burguesa? Mas, afinal, o que é essa tal de burguesia? Esqueça o controle dos meios de produção, pensando, por extensão, no filme "Tempos Modernos" - mas no controle dos meios de produção da vida social como um todo, o controle do poder social que é o dinheiro, que possibilita comprar a força de trabalho das pessoas, que permite ter alguém ao seu "serviço", e que achando que está fazendo um "favor" ao "criar empregos" quer que o mundo viva em função dos seus desejos e vontades.

O capitalismo atual deixa essa questão bastante confusa, e há mesmo quem dentro da teoria social crítica rejeite a ideia de uma dominação dada fundamentalmente pelo domínio de classe. Isto se explica pelo motor ideológico da nossa economia contemporânea: o consumo alimentado pelo crédito, num pacto de classe frouxo onde todos os nossos desejos estão ao alcance das nossas mãos, ou melhor, do nosso cartão de crédito. Só que tem hora que a conta não fecha - vide a bolha imobiliária americana - o pacto frouxo se desfaz e fica bastante evidente que há uma luta de classes quando entendemos quem paga a conta da crise. 

Do mesmo jeito é com a mobilidade. O trabalhador além de pagar pra trabalhar paga para que o patrão vá de carro para o trabalho, pois os impostos regressivos neste país, todo o custo que o modal do carro acarreta faz com que a fatura imperceptível chegue na conta dos desempoderados, pois lhes falta no bolso o nivelador universal que é o money. 

Deixemos, pois, de pensar na mobilidade urbana (que nada mais é do que mobilidade dos fatores de produção da economia urbana) para lutarmos por uma mobilidade humana, que só é possível no espaço público e com transporte público de qualidade e acessível, na mobilidade como direito de ir e vir, como capacidade de se encontrar, mobilidade das pessoas e não das máquinas!


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Do Eleitor ao Cidadão - A Resistência Criativa e a produção do Espaço Público como lugar do exercício da Cidadania

Marcelo Freixo
Renato Roseno

Ao ver o vídeo do lançamento da pré-candidatura do Renato Roseno (PSOL) à prefeitura de Fortaleza me chamou atenção um termo utilizado por ele: resistência criativa. Esse termo tem muito a dizer sobre as possibilidades frente à nossa política atual e o momento crucial que temos vivido em termos do nosso modelo de desenvolvimento, do crescimento das nossas cidades e das profundas desigualdades sociais que nos caracteriza e são efeitos dessa gestão feita para criar "um ambiente favorável aos negócios", ainda mais urgente em tempos de preparativos para a copa do mundo e das olimpíadas. Daí pensar no ato de resistir a tudo isto, resistência que se estabelece enquanto negatividade, como o outro insurgente na tensão, tensão na produção de algo novo, no exercício de criar. A resistência criativa, em sua práxis, produz, portanto, uma humanização de nós mesmos ao significar o ato de resistir no de reexistir. Cria-se uma nova existência, que é aquela da humanização dos homens, numa pedagogia em que conhecemos o nosso mundo ao destruir o mundo ideológico das falsas promessas, da política de acordos espúrios e da economia da exploração - mundo que conhecemos e que transformamos e que ao assim procedermos transformamos nós mesmos - reexistimos. Só assim que a resistência criativa tem em si a destruição criativa e, desse modo, se qualifica na negatividade da história, esta história produtora de acontecimentos, cujas rupturas, catástrofes e tensões dão fundamento aos acontecimentos produtores da história. 

De outro modo, ao resistirmos e reexistirmos transformamos o mundo e produzimos nos espaços de resistência o espaço público - o espaço da reexistência humanizada. É este espaço que possibilita os homens se encontrarem, pois está ele incluso na escala do corpo, e é nos encontros do espaço público que exercemos a nossa cidadania e materializamos a política, vivificando-a no conteúdo existencial da nossa prática e na materialidade do espaço da nossa "rexistência". O espaço público não está morto, muito pelo contrário. Ele está na conversa na calçada, na esquina, no boteco, na escola, na brincadeira das crianças no campinho de terra. O espaço público é o espaço em que existimos. Contudo, se é o espaço público um espaço político, numa política viva, cheia de conteúdo, de ideias e de práticas compartilhadas, ele precisa ser subtraído pelos poderes que decretam a morte da política em nome do benefício privado do lucro. É essa política que na época de eleições é financiada por grandes corporações e que mais a frente garante aos seus financiadores as concessões dos serviços públicos, ofertando uma rentabilidade de três vezes ou mais do dinheiro investido em campanha. É a política corrupta da Delta e sua promiscuidade com os governos do Sergio Cabral e do Eduardo Paes no Rio de Janeiro, e com o governo da Luizianne Lins em Fortaleza. Essa mesma política da morte em que os partidos tem todas as decisões tomadas por uma cúpula negociadora de interesses e de minutos de propaganda, e que a base popular da campanha é comprada, literalmente, numa "ajuda de custo" nada mais que sintomática da falta do genuíno apoio popular.

Essa política da morte, que como nos ensina até hoje Paulo Freire quer impedir os homens da sua vocação de ser mais, priva-nos do espaço público, do espaço político, do conteúdo social da política, e nos transforma naquilo que o Marcelo Freixo vem chamando de "cidadão foca": aquele que vai pra evento político, bate palma e vai pra casa - não dialoga, não opina, não questiona! Essa falsa política precisa que a política de fato, aquela que está entrelaçada à nossa prática transformadora do mundo e de nós mesmos, seja asfixiada pelo esvaziamento do debate político e pela destruição do espaço onde ele se dá - o espaço público. E isto está estreitamente ligado à forma de acumulação do capital por espoliação. Ora, no fim das contas temos o espaço público espoliado de nós mesmos, e se sem ele não "existimos", não somos cidadãos, somos reduzidos a eleitores. 

E aí que está a importância dessas eleições, para mim especialmente em Fortaleza (onde nasci e vivi até os 15 anos) e no Rio de Janeiro (onde vivo atualmente). A cada remoção urbana, a cada alargamento de via, a cada praça e calçada diminuída para dar lugar a carros, a cada choque de ordem da prefeitura, a cada inflação da vida urbana guiada pelos especuladores imobiliários, temos de nós usurpado, expropriado, espoliado o espaço público. 

Sinto-me este ano convidado pelo Marcelo Freixo e pelo Renato Roseno a resistir e reexistir para a retomada e reconstrução do espaço político das nossas cidades, para o espaço de exercício da nossa cidadania, para o espaço da nossa humanização - para que deixemos de ser meros eleitores e passemos a ser de fato cidadãos. Para que, ao resistir, criemos mais espaços públicos - espaços de vida ativa!

Eu voto 50!


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Estadocentrismo x Estadofobia: contra os discursos reducionistas acerca da profissão do geógrafo no Brasil



A maior parte da crítica que vem do pensamento “revolucionário”, “radical”, “crítico” não permite se aproximar de um problema fundamental: o que significam as mudanças interdisciplinares e tecnocientíficas para quem luta por um mundo mais justo e mais livre? E em que consistem essas mudanças do pensar e do fazer do sistema dominante, do paradigma dominante?
Pablo González Casanova, As Novas Ciências e as Humanidades: da academia à política (2006), pág. 29

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Em muitos dos seus trabalhos, no intuito de caracterizar as distintas formas pelas quais os planejamento e gestão urbanos tem se efetivado e como os ativismos urbanos tem se relacionado com o Estado nesses processos, o geógrafo Marcelo Lopes de Souza cunhou os termos Estadocentrismo e Estadofobia. O primeiro diz respeito a crença de que toda criação, todo processo de transformação dos espaços, seja em atenção ao mercado capitalista ou num esforço keynesiano de regulação a favor de mais justiça socioespacial, só o Estado pode provir. Já o segundo, repudia toda e qualquer intervenção do Estado, partindo da concepção de que o aparelho estatal é essencialmente conservador e mantenedor do status quo.
Aqui, utilizaremos esses termos com os seguintes significados: o Estadocentrismo enquanto concepção de que o geógrafo, em sua prática profissional, deve atuar no âmbito do Estado, em conformidade com as exigências das entidades ou dos conselhos reguladores (leia-se CREAs ou quaisquer outros conselhos); e a Estadofobia enquanto a recusa em atuar em conformidade com essas exigências institucionais e, num sentido mais radical, a recusa em atuar no âmbito do próprio Estado, partindo da ideia de as atribuições do geógrafo no âmbito do aparelho estatal (e, em muitos casos, toda a atuação do Estado) serve, antes de tudo, para a reprodução do modo de produção hegemônico.

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A atual situação profissional dos geógrafos
Em 1º de Março de 2011, na ocasião de um seminário sobre a atual situação profissional dos geógrafos que teve lugar em Recife/PE, publicamos aqui um texto que tratava dessas questões, ao passo que marcava nossos posicionamentos (acesso aqui). Nesse texto, Thiago Machado explicitou de maneira inicial, mas bastante satisfatória, quais são os impasses que atualmente permeiam as discussões sobre a situação profissional do geógrafo (se é que se pode pensar, hoje em dia, num profissional geógrafo).
Não custa nada lembrar, mas os bacharéis em geografia possuem atribuições práticas garantidas pela famigerada Lei nº 6664 de 26 de Junho de 1979 e pelas diversas outras medidas e emendas que, entre outras coisas, conferem a regulamentação profissional do geógrafo ao Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CONFEA) e seus inúmeros conselhos regionais (CREA's). Diferente dos licenciados que atualmente tem sua prática profissional regulada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE/MEC).
Entretanto, devido ao corporativismo desempenhado por engenheiros, economistas e outros profissionais nos órgão públicos e privados, junto à perda de interesse por parte dos geógrafos em relação às atividades práticas e, por fim, o surgimento da geografia radical (e a devida crítica a modernização capitalista e ao Estado desenvolvimentista), os geógrafos foram perdendo espaços de atuação, ao passo que também perderam representatividade junto ao CREA e, consequentemente, foram possibilitando que outros profissionais tomassem atribuições que antes só eram suas.
Nesse processo, no que diz respeito a atuação profissional, podemos constatar duas diferentes posturas: uma Estadocêntrica e outra Estadofóbica.

O Estadocentrismo
Como assegurou Yves Lacoste, a geografia enquanto unidade disciplinar surgiu com propósitos eminentemente imperialistas. De um lado Ratzel com seu determinismo em respaldo a constituição real do Estado nacional alemão, e do outro lado La Blache com seu possibilismo em prol do desenvolvimento histórico francês, da Terceira República e do conflito de interesses com a Alemanha.
Os postulados positivistas é que sustentaram a geografia tradicional, desde seus primeiros pensadores, sendo hegemônico até no marco de sua renovação, quando se fundamentou sua cientificidade, inaugurando o que convém chamar de geografia teorético-quantitativa. A geografia quantitativa, portanto, apoiava-se fortemente na razão cientifica moderna e na tecnologia que, como resumiu o filósofo mexicano Pablo Gonzáles Casanova, sempre serviram para a reificação do homem e a humanização da máquina. Tem-se, em razão dessa tendência, a constituição de uma geografia burocrática, pragmática, do planejamento de Estado e do desenvolvimento econômico. No âmbito científico, tem-se enfim uma definição do objeto de estudo da geografia, mas a partir do ideal cartesiano, fragmentado, onde sociedade e natureza eram tidos de maneira dissociada e irreconciliável.
No Brasil, desde o início do século XX, essa geografia pragmática e Estadocêntrica se difunde nas agências de planejamento e gestão do Estado, em suas diversas escalas. O geógrafo sempre foi muito mais conhecido pela elaboração de seus monótonos levantamentos, mapeamentos, diagnósticos e estudos preliminares que visavam orientar ou mesmo justificar grandes obras, sejam do Capital ou do Estado, voltadas ao progresso e ao desenvolvimento econômico. Entretanto, essa geografia Estadocêntrica, da modernização capitalista, nunca atentou com generosidade para os ritmos de vida diferentes, para as rugosidades presentes no espaço geográfico, sejam elas de ordem ambiental (ecossistemas, biomas, nichos ecológicos etc.), ou mesmo sociais (comunidades tradicionais, modos de produção específicos, signos culturais etc.). De maneira diferente, o espaço era tido enquanto uma tabula rasa, uma superfície isomórfica e quantificável.
É no âmbito da crítica a essa postura Estadocêntrica e pragmática, e também da crítica a geografia tradicional, que a vertente crítica da geografia insurgiu, propondo uma geografia mais generosa. Partiu-se, nesse percurso, de um exame minucioso dos desdobramentos dos postulados positivistas e descobriu-se que a razão científica e a tecnologia são instrumentos de reificação que impossibilitam a visão concreta do mundo capitalista, desigual, destruidor e essencialmente aviltador dos valores humanos e das relações ambientais.
Pior, descobriu-se que o positivismo e, consequentemente, a geografia pragmática, contribuíram com a degradação da natureza e da sociedade, pois os geógrafos pragmáticos procuravam, no âmbito de suas atividades nas agências e secretarias de planejamento estatais, concretizar a modernização capitalista.

A Estadofobia
Mas parte da crítica que se faz hoje contra o Estadocentrismo na geografia e, consequentemente, contra essa geografia pragmática, calculista e burocrática, parte da constatação de características intrinsecamente conservadoras no Estado desenvolvimentista. A própria geografia crítica levada a termo pela Associação dos Geógrafos Brasileiros desde a década de 1980 tem como mote não só a luta pela derrocada do capitalismo, mas também uma luta contra esse Estado interventor, ou seja, voltado ao desenvolvimento capitalista. Contra esse Estado, passou-se a se dirigir críticas cada vez mais duras e que se baseavam na crença de que é preferencialmente no seio das contradições socioespaciais, nas lutas dos movimentos sociais, que podem insurgir processos de mudanças efetivas rumo a uma maior justiça socioespacial. Isso, em certo sentido, foi um passo importante no que concerne a consolidação de uma geografia mais generosa e politicamente atuante.
Todavia, a crítica ao Estado desenvolvimentista, em muitos aspectos, facilmente evoluiu para a contraditória Estadofobia. Nesses casos, numa curiosa mudança de postura, o alvo das críticas deixou de ser o Estado desenvolvimentista, passando a ser o próprio Estado como um todo, mesmo não havendo, nos argumentos dessas críticas, uma completa noção do que de fato significa a estrutura “Estado”.
Essa Estadofobia ainda hoje vigente em muitos discursos geográficos postula que o Estado tem um caráter unicamente conservador e que a transformação social só pode erigir em meio às lutas sociais. Tal postura seria coerente e incontestável se não fosse a enorme redução que realiza acerca da noção de Estado, considerando-o um monólito, um conjunto homogêneo de valores e interesses, e ainda, uma estrutura todo poderosa, um Leviatã, que pode submeter tudo e todos ao seu poder. Na verdade, pelo menos no meu entender, o Estado se constitui numa arena de conflitos de interesses que, se algumas vezes atua de maneira restrita e notavelmente autoritária, outras vezes atua de maneira ampliada, possibilitando processos participativos, quando não atuando de maneira efetivamente progressista.
É necessário conhecer e admitir que há sim experiências de planejamento e gestão levadas a cabo pelo Estado que, mesmo em meio aos imperativos da ordem capitalista, tem logrado êxito na promoção de certa justiça socioespacial, ou mesmo possibilitado ganhos em termos de autonomia por parte de populações pobres urbanas e rurais.
A “postura Estadofóbica”, entretanto, adjudica a transformação social apenas a alguns movimentos sociais, sem ressalvas. Mas, contraditoriamente, abstêm-se de contribuir concretamente com eles, na medida em que rejeita a técnica e a luta institucionalizada. O resultado desse processo é a consolidação de uma prática profissional limitada ao âmbito educacional, quando não estritamente acadêmica (que, também de maneira contraditória, é economicamente sustentada pelo Estado). Os geógrafos críticos, na maioria das vezes, contribuem com os movimentos sociais de maneira indistinta a todas as outras vertentes militantes das demais humanidades, ou seja, apenas no âmbito reflexivo.
São poucas as experiências práticas e efetivamente contribuintes para as causas dos movimentos sociais que podemos constatar por parte da Geografia crítica brasileira. Um exemplo próximo ao autor dessas linhas e extremamente ilustrativo dos impasses ocasionados pela Estadofobia foram as atividades desenvolvidas no âmbito do Grupo de Pesquisa Movimentos Sociais e Espaço Urbano da UFPE na tentativa de contribuir para a construção do território de vida da ocupação pobre urbana Josué de Castro, no Recife/PE, entre os anos de 2009 e 2010. Houve, nessa experiência, a necessidade de solicitar os serviços de diversos outros profissionais para exercer atividades que qualquer geógrafo poderia desempenhar se pudesse instrumentalizar certos equipamentos técnicos e se institucionalmente isso fosse permitido. O resultado foi que, na construção de um plano habitacional participativo para as famílias ocupantes, os arquitetos e os topógrafos tiveram um papel muito mais importante do que o dos geógrafos (inclusive no tocante a questões educativas) que, sendo todos eles filiados ao paradigma crítico, não conseguiram trazer nada de concreto a não ser elocubrações teóricas.

Tecnociências e transformação social
Essa atuação limitada a quesitos educativos ocorre por conta do não reconhecimento, por parte dos geógrafos críticos, da importância dos instrumentos técnicos nos processos de transformação socioespacial. E isso não é um problema apenas da geografia, mas também de quase todas as humanidades.
Como afirma Casanova na citação que inicia este escrito e no decorrer de seu brilhante livro, o pensamento crítico tem se limitado a repetir seus repúdios, evidenciando os males concretos e ideológicos da racionalidade científica e tecnológica, mas não tem se debruçado sobre o conjunto de possibilidades trazidas, por exemplo, pelos instrumentos técnicos e pelos novos saberes científicos, sobretudo aqueles que se apoiam no desenvolvimento da interdisciplina, nos estudos sobre os sistemas complexos autorregulados e autopoiéticos, na cibernética e na pesquisa-ação. É entendendo a importância deles que este autor propõe a união entre as novas ciências e as humanidades, como forma de reinventar o pensamento crítico e alternativo, adaptando-o aos novos desafios impostos pelo mundo de hoje que, por sua vez, está dominado por um capitalismo complexo. Para usar os termos deste autor: “Toda a aproximação entre essas duas culturas deve ser bem-vinda: a das novas ciências da complexidade e tecnociências, e a do pensamento crítico em suas versões marxistas e não-marxistas” (As Novas Ciências e as Humanidades: da academia à política, 2006, pág. 48).
Mas, infelizmente, não tem sido vistos muitos esforços neste sentido. No âmbito da geografia crítica brasileira, o único pensador que efetivamente atentou para a importância da tecnologia e dos novos saberes foi Milton Santos. Este autor desde a década de 1990 já destacava o papel da tecnologia na construção do que ele mesmo chamou de período popular da história.
Por essas e outras, não se pode mais negligenciar a importância de instrumentos técnicos na prática profissional do geógrafo crítico. Entre esses intrumentos podemos citar os sistemas de informações geográficas (SIGs) e as demais geotecnologias, os métodos sistemáticos de análise e gestão ambiental, os biomonitoramentos, os Estudos de Impacto Ambiental (EIA), sejam para auxiliar os movimentos sociais na construção de seus territórios ou mesmo para práticas progressistas de planejamento e gestão estatais.
Sabemos os riscos que podem haver, por exemplo, nas ocasiões em que o profissional deixa de lado seus princípios e os valores que regem sua profissão para usar seus conhecimentos a favor do capital e, consequentemente, da degradação socioambiental. Mas se recusar a enxergar nesses instrumentos possibilidades concretas de transformação social e preservação ambiental para novamente cair no dadaísmo infinito que caracteriza, em certo sentido, algumas posturas críticas é algo ainda mais perigoso. Por isso, o domínio das técnicas provenientes das atuais inovações tecnocientíficas é extremamente importante. Além do mais, é bom lembrar que em termos axiológicos, nenhuma técnica é portadora de destinações essenciais, pois quem decreta seu uso final, seja para o bem comum ou não, é a política. Nesses termos, nossas críticas devem se destinar a essa última instancia atualmente.

Por uma postura Estadocrítica
Creio que, no âmbito profissional, já passou da hora dos geógrafos assumirem uma postura mais inteligente e não dogmática, longe dos reducionismos acima descritos (Estadocentrico ou Estadofóbico), afinado com as novas ciências e suas tecnologias e mantendo a postura crítica.
O geógrafo Marcelo Lopes de Souza também fala de uma postura Estadocrítica, referindo-se as formas pelas quais os ativismos urbanos devem se relacionar com o Estado nos processos de planejamento e gestão urbanos. Essa postura consiste num comportamento efetivamente autônomo em relação ao Estado, uma vez que se coloca enquanto proposta alternativa entre o  Estadocentrismo e a Estadofobia. Ela, a postura Estadocrítica, procura, antes de tudo, manter o grupo comprometido apenas com ganhos substanciais relativos aos seus interesses. Em suma, consiste em atuar junto ao Estado quando isso significar ganhos, contra o Estado quando a atuação deste representar perdas para o grupo, e a revelia do Estado quando este não contribuir com seus interesses.
Da mesma forma, os geógrafos deveriam se comportar: junto ao Estado, quando houver possibilidades de ganhos para o bem comum; contra o Estado, junto aos movimentos sociais, ou mesmo no âmbito das agências e secretarias, órgãos de regulação e gestão estatais, para tentar embargar ações socioambientalmente predatórias por parte de setores do aparelho estatal; e a revelia do Estado, junto aos movimentos sociais, nas organizações não-governamentais, em processos concretos e alternativos de construção da autonomia de comunidades e de preservação da natureza.
A adoção de uma postura Estadocrítica é extremamente urgente nos dias de hoje devido a forte ação do capital e do Estado (agora neo-desenvolvimentista) que juntos têm conseguido concretizar seus interesses sem muitos impedimentos. A luta contra o atual processo predatório de modernização capitalista que tem se verificado nos países [semi]periféricos deve se efetivar em todas instâncias, dentro e fora do Estado, mas sempre em cooperação com os movimentos sociais e em contato com os novos saberes científicos.
Essa necessidade de agir criticamente se torna ainda mais urgente hoje devido ao fato da apropriação, por parte de algumas vertentes mais descomprometidas da geografia, dos instrumentos técnicos para fins acadêmicos e profissionais, mas sem nenhum sentido crítico ou ambientalmente conservador. Diversos laboratórios de geotecnologias tem sido criados nos departamentos de geografia Brasil a fora, muitos sem reais preocupações sociais ou ambientais. Ao contrário, esses laboratórios muitas vezes têm servido ao grande capital e ao Estado desenvolvimentista, na materialização de seus interesses. É por essas e outras que, em vez de negligenciar a atual situação profissional, os geógrafos críticos necessitam lutar para conquistar espaços de atuação concretos, tanto no âmbito do Estado como fora dele, junto aos movimentos sociais, ONGs, entidades civis etc.
É extremamente premente o fortalecimento da classe, a conquista de espaços e, pensando positivamente, a construção de associações e depois conselhos de regulação profissionais para que o geógrafo torne a exercer suas atribuições e contribua efetivamente na transformação do mundo.


Murro em ponta de faca: o permanente exílio dentro de nós!


Cheguei agora a pouco de uma expressão artística e de um debate que me deixaram muito entusiasmado. A peça "Murro em ponta de faca", texto do Augusto Boal, fundador do Teatro do Oprimido, e direção do grande Paulo José, seguida de um excelente debate com a mediação de Cecília Boal e participação do deputado Marcelo Freixo e da psicanalista Vera Vital. O texto da "Murro em ponta de faca" perpassa a experiência de muitos exilados durante a ditadura, mas é especialmente inspirada na própria experiência do exílio do Augusto Boal.

Sem entrar em detalhes na atuação dos atores - por sinal maravilhosa - há uma personagem bastante peculiar, a Maria. Nos dois primeiros terços da peça ela meio que passa despercebida, sua tristeza mórbida, seu silêncio e sua ausência podem nos levar a crer que talvez a atriz não tenha a tal "presença de palco". Contudo, Maria não estava mesmo ali - não havia lugar para ela ficar, nem havia tempo que passasse. Ela só via corpos amputados, sangue e verme, o que a levava a olhar para as mãos carinhosas do seu amado Paulo e só ver mãos amputadas, desonrando o fato de que Paulo e mesmo ela ainda tivessem no lugar suas mãos, suas orelhas, suas pernas, os seus sexos. No fim da peça é a atriz que faz Maria que me encanta pela sua ausência tão presente.

Talvez também não se tenha percebido, mas durante o debate é de Maria que estávamos o tempo todo falando. Era da visão de horrores cometidos durante a ditadura, dos desaparecidos, da mentira e manipulação ideológica, enfim, do poder que coisifica as pessoas a despeito de qualquer humanidade. Direitos Humanos. E a grande questão que se levanta no debate, especialmente pela presença do Freixo, é que assim como era antes o é hoje, com a sutil distinção do inimigo interno, se antes eram os comunistas e os subversivos hoje são aqueles que não podem pagar pela sua cidadania.

Debater isto no dia do geógrafo não teria referência melhor do que aquilo que o Freixo chama de dignidade por CEP. E isto me faz ressuscitar um texto escrito aqui no blogue quando eu estava prestes a vir tentar a vida de mestrando no Rio e a mídia transmitia os eventos de novembro de 2010 em que tanques das forças armadas ocupavam o chamado Complexo do Alemão. O que dava pra perceber ali é o padrão conceitual de segurança pública no mundo contemporâneo e que se materializa nas nossas cidades. É o que eu chamei de indústria do medo e, por conseguinte, sua tecnologia do terror. Em qualquer cidade que visitemos hoje em dia esse padrão se repete e se geografiza ao explorar os espaços integrados que prometem a segurança e o conforto em oposição ao mundo lá de fora, violento, habitado por bárbaros. 

Estes bárbaros são os jovens negros e pobres, são as Marias estupradas e violentadas todo santo dia pela sua condição de não consumidores da cidadania burguesa, para quem não há lugar nem história. Àqueles que são incluídos nessa cidadania pelo cartão de crédito basta uma cidadania capenga, uma inclusão precária, que dura até à sua condição de mal pagador. E assim se cometem a atrocidades de grau similar aos da ditadura em plena luz do século XXI nas cidades da sexta economia do planeta.

Assim como posto no mesmo texto vemos hoje a questão dessa sociedade pós-traumática, ainda não recuperada de um trauma social como a ditadura, sociedade cujo recalque hoje produz indivíduos que não tem o direito ao pós-trauma, pois este é permanente, é cotidiano, é contínuo - tal como assevera o filósofo Slavoj Zizek.

Enfim, saí desse debate com mais uma crise de inquietação que nos abate sempre que saímos da matrix e paramos para pensar nesse mundo. Certamente que para ampliar a cidadania e rompermos com essa sociedade de controle que automaticamente obstrui toda e qualquer fonte de desordem ao status quo, precisamos levar a sério esse passado tão recente e com feridas tão abertas. Precisamos sair do exílio compulsório que nos impede de descobrirmos que mudar é possível, que a utopia é mais que o inalcançável, é o necessário, é o murro em ponta de faca. O Brasil precisa, por fim, aproveitar a comissão da verdade e sentar no divã. 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Novas Políticas Urbanas: do "imobilismo criativo" à estratégias de ações mais ousadas




A cidade do Recife tem vivido nos últimos meses uma enorme efervescência em termos de debates e ações políticas acerca de questões ligadas a produção e organização do espaço urbano. Um enorme barulho tem-se feito por conta da forma a qual o mercado imobiliário (principal agente produtor do espaço urbano no capitalismo [semi]periférico) tem atuado no contínuo processo de supressão dos valores-de-uso no ambiente citadino e a conversão desses valores em valores-de-troca. Esse processo só é possível, como todos sabemos, porque em nossas cidades as grandes organizações imobiliárias exploram de maneira monopolista a renda fundiária do solo, constroem e negociam imóveis quase sem nenhum tipo de regulação. Esses grupos, por sua vez, erigiram com o aporte das políticas públicas de provimento de habitação dos períodos Varguista e Militar (notadamente pela Fundação da Casa popular e depois pelos os empreendimentos viabilizados pelo Banco Nacional de Habitação [BNH]) e, desde então, tem promovido o atual des-ordenamento urbano sem muita oposição (exceto por parte de alguns movimentos sociais urbanos e de intelectuais universitários de tendência marxista/keynesiana), tendo como adjuvante o Estado em todas as suas instâncias.
O alvoroço político ocasionado pelas atuais discussões (protagonizada, sobretudo, por estudantes de classe média, alguns professores universitários e outros trabalhadores), entretanto, não tem conseguido extrapolar o imediato e dificilmente tem se debruçado sobre questões transversais. Os debates atuais que permeiam as ações do Ocupe Estelita (ocupação do histórico Cais José Estelita, no Recife, em protesto ao mega-empreendimento imobiliário que esta em vias de se concretizar naquele lugar), por exemplo, tem se efetivado essencialmente no âmbito da agressão ao patrimônio histórico, do desconforto ambiental e do caos relativo a mobilidade urbana, mas tem se negligenciado a refletir sobre pontos que estão no cerne do problema, como o próprio modo de produção do espaço urbano.


Não é de se estranhar essa omissão em conduzir o debate para patamares fundamentais, pois esse tipo contemporâneo de ação política se fundamenta na recusa aos fundacionalismo, da mesma maneira que se organiza negando a organização.
Esse superficialismo, todavia, não possui culpados. Os limites dos atuais debates e das recentes ações que se propõem transformadoras não são decorrentes da visão limitada e modistas de seus protagonistas, como alguns estão sustentando (aqui e aqui). O fato é que a cosmovisão que alicerça tais ações tem como inelutável plano de fundo o fracasso das alternativas do século XX e a premente necessidade de se pensar em uma nova alternativa.
Em outras palavras, depois de decretado o fim da história nos anos 1990 (sim, pois isso não foi apenas um mito fukuyamista, visto que desde então até as esquerdas passaram a levar a termo o projeto neoliberal), a roda necessitava voltar a girar. E isso tem sido feito, mas com muita cautela para não repetir os erros do passado. Os novos ativismos tem procurado, portanto, efetivar-se sob novas formas de ação. Devido ao frescor, essas novas formas ainda não conseguiram apreender a totalidade social e, consequentemente, a melhor forma de transforma-la.


Como se pode perceber, essa busca por algo novo se iniciou pela luta contra aquilo que não se quer (não só em termos de realidade socioespacial, como também em relação às formas de transformação dessa realidade), e mesmo sem saber direito o que se quer, essa negação passou a indicar a novidade.
Creio que trata-se da negação dialética que engendra as mudanças sociais e o desenvolvimento histórico. Os recentes movimentos de ocupação de ruas articulados pelas redes sociais além de negar o mundo capitalista, negam também a organização política hierárquica e creem muito mais na auto-gestão e na solidariedade, negam também a construção de projetos unidirecionais e utilitários, na medida em que valorizam o pluralismo e a identidade. Negam a luta de classes, as políticas redentoras, a modernidade etc. Enfim, negam muito mais do que propõem! Mas no ato da negação já afirmam um série de coisas. Sendo assim, não se pode fazer juízo acerca de tais ações, tendo como fundamento questões também imediatistas. Temos, por fim, que admitir a importância de ações como o Ocupe Estelita, sendo paciente e apostando em suas potencialidades.


Mas algo precisa ser feito concretamente! Da mesma forma que os debates e as ações tem apontado para uma novidade, também precisam ir além, saindo do “imobilismo criativo”, procurando responder explicitamente a seguinte questão: o que queremos? E isso é extremamente urgente! Vamos lembrar que foi essa dificuldade em construir um programa diferente que levou as manifestações espontâneas espanholas (o Democracia Real Ya!) a provar o amargo gostinho da derrota simplesmente pelo fato de se recusar a disputar as eleições, ou mesmo pelo fato de não fundamentarem explicitamente um novo caminho.



Esse indeterminismo, essa omissão em afirmar explicitamente essa nova utopia que se esboça é, entre outras coisas, o maior embargo a qual está fadado esses movimentos. Particularmente, tenho percebido esse indeterminismo em alguns outros ativismo urbanos, tais como o grupo Bicicletada Recife (cicloativistas que promovem o uso da bicicleta, inspirados nas experiências do movimento Critical Mass em São Francisco/Califórnia e em todo mundo). Os meios os quais os protagonistas desse movimento lançam mão para promover a mudança limitam-se, quase sempre, a orientações com vistas a mudanças comportamentais individuais, utilizando-se de argumentos de ordem transcendentais (do tipo: é bom, faz bem, é do bem), negando qualquer tipo de tentativa de construção social de um projeto coletivo para salvaguardar os preceitos (quase que doutrinários) do movimento. Há, na atuação desse movimento, uma verdadeira mistificação do processo de mudança, algo que se assemelha muito ao misticismo redentor de algumas filosofias ambientalistas.




Como dissemos, esse obscurantísmo e essa indeterminação se constituem no principal embargo a construção de lutas mais fortes e ousadas que visem a mudança efetiva da realidade. Como diria Agnes Heller e Ferenc Feher em seu livro A condição Política Pós-Moderna (2002): “os frutos da condição [teórica e política] pós-moderna são quase inteiramente negativos, na medida em que a política e a mudança política se tornaram quase inteiramente irracionais e imprevisíveis”.


Ademais, outro importante embargo a construção de estratégias de ações mais ousadas é essa importação de fórmulas. O Ocupe Estelita, assim como todos os outros movimentos de ocupação de ruas e espaços públicos que aconteceram nesses dois últimos anos no Brasil (com exceção dos promovidos pelos movimentos sociais mais “tradicionais” como os movimentos sem-terra e sem-teto) são quase que uma cópia mal sucedida das ações que tem ocorrido nos EUA e na Europa. Acredito que isso se constitui em mais uma faceta do próprio colonialismo que, por seu turno, efetiva-se não apenas em termos conservadores, mas também em termos revolucionários. Em suma: é preciso pensar a transformação concretamente e a partir de nós mesmos!


Bom, há muitas outras questões que serão tratadas mais a frante, em outro post. Por fim, reproduzo o trecho da fala que o filósofo esloveno Slavoj Žižek pronunciou na Liberty Plaza, Nova York, na ocasião do acampamento do Occupy Wall Street.


Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem”. (Traduzido por Rogério Bettoni e publicado no blog da Boitempo)



domingo, 1 de abril de 2012

Ditadura - o cinismo dos torturadores e a impunidade!


Fui aluno do Colégio Militar de Fortaleza, do qual me orgulho bastante pelos amigos que fiz e pelas experiências que lá passei. Contudo, jamais vou me esquecer, apesar da pouca idade, da minha indignação quando no 31 de Março a hipocrisia militar nos impunha palestras e demais adestramentos para nos fazer acreditar que aquilo que fora um crime contra a nossa soberania e democracia popular haveria sido uma revolução. 

Eles nos impregnavam a imagem da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, como se aquela classe média burguesa paulista representasse os interesses do povo brasileiro. Lembro muito bem a palestra com algum velho milica que vivera aquele momento, provavelmente um criminoso do período, quando antecipadamente nos avisaram que qualquer manifestação contrária seria seriamente punida. No ano seguinte, uma formatura geral com todo o colégio em comemoração à "Revolução Democrática de Março de 1964" gerou uma grande insatisfação na minha turma. Lembro de um amigo indignadamente saindo de forma dizendo que estava passando mal. Lembro da aula seguinte de história em que a própria professora se demonstrou indignada com a cena que tinha acabado de assistir, cuja indignação, se externada aos seus superiores, seria motivo de demissão por justa causa.

Tudo isso me fez perceber, quando ainda adolescente, o nível do cinismo desses criminosos, o que é importante dizer, não são todos os militares. Minha família que pessoalmente sofreu com esse período da nossa história não me deixou enganar com toda aquela retórica épica que nascia na Guerra do Paraguai e encontraria seu auge na dita "Revolução".

Agora morando no Rio de Janeiro é com muita indignação que vejo a comemoração no Clube Militar do Rio de Janeiro e toda repressão aos manifestantes contrários à impunidade desses torturadores. E mesmo hoje, dia 31 de Março, dia em que o homofóbico e "multifóbico" deputado federal Jair Bolsonaro alugou um avião monomotor em Copacabana e Ipanema para trazer uma faixa em comemoração ao golpe.

De todo modo, acho que o retorno dessa discussão é fortemente importante. Podemos nos abster desse assunto e esquecer tudo o que aconteceu? É justo com as famílias que perderam seus parentes não enterrar seus mortos e nem ver os assassinos punidos? É por conta disso que precisamos de uma Comissão da Verdade intransigente em suas metas de identificar e mesmo punir os torturadores. Não podemos ser de acordo com crimes de Estado.

Para tanto vejo que a lei da Anistia deve ser revista e os crimes de Estado punidos. E para mim não vale o argumento de que haveriam de ser punidos também os militantes de resistência, fossem seus objetivos a tal da ditadura do proletariado ou a democracia burguesa tal como hoje, pois em nome da ordem quem produziu a desordem social foram os próprios militares, que em defesa de um poder repressor legitimaram qualquer que fossem as lutas dos seus opositores.

Precisamos aprender com os nossos vizinhos latinos americanos e não perdermos novamente a soberania nacional como naquela época. É bastante pedagógico o documentário que a TV Brasil tem transmitido nesses dias, o qual nós publicamos abaixo. Essa é uma questão que não podemos jamais nos furtar e que ademais as décadas passadas é bastante atual, principalmente em face da onda de conservadorismo que tenta legitimar os crimes cometidos no passado. 

Aos militares contemporâneos à ditadura militar, dos quais conheci alguns, deixo a minha indignação aos crimes hediondos que vocês cometeram! Vocês não merecem nem o nosso esquecimento, mas a lembrança ano após ano das atrocidades das quais vocês são responsáveis. 




"Quando eu não tinha o olhar lacrimoso,

que hoje eu trago e tenho;

Quando adoçava meu pranto e meu sono,

no bagaço de cana do engenho;

Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus,

fazendo eu mesmo o meu caminho,

por entre as fileiras do milho verde

que ondeia, com saudade do verde marinho:


Eu era alegre como um rio,

um bicho, um bando de pardais;

Como um galo, quando havia...

quando havia galos, noites e quintais.

Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo

o mal que a força sempre faz.

Não sou feliz, mas não sou mudo:

hoje eu canto muito mais"


galos, noite e quintais - Belchior